domingo, 31 de janeiro de 2010

Despedida

E pela janela do quarto eu vejo meus olhos molhados, molhados do adeus que dei a mim mesma.
Me deixei partir, no momento em que chovia...
Chovia de leve, e as gotas dançavam no vidro dessa janela...
Janela mesma onde já passei dias e noites admirando os mesmos olhos, antes secos, antes belos, antes cheios de sonhos.
Me despeço de mim, esse eu que era agora mesmo, nesse instante passado... E que se remodela a cada instante que chega...
Aprende, confunde, chora.
Chora de saudade, de nostalgia.
E nostalgia essa agora sabida de onde.

Na janela molhada que encara meus olhos de despedida, cada gota reflete a mesma imagem, um espelho.

Tudo jogado pelo nada que se tornou o quarto, a máquina de escrever, a música composta e incompleta, os pares e pares de sapatos, roupas, eu.
As paredes parecem menores, e cada vez mais vivas, mais cheias, mais intensas.
A subjetividade de cada palavra poema trecho. Tantas palavras, mas nenhuma se encaixa quando quero falar. Quando devo falar.

O sorriso dela, desenhado ao meu redor.

O que seria esse rio sem fim, apenas a ilusão de que preciso levantar?
Re-começar, re-erguer.

Pela janela do quarto ainda posso me ver, dobrando a esquina... Hesitante ainda olho para trás, há tempos não olhava... E ao fazer isso me deparo com todas que já fui, todas que sou... Todas elas, do outro lado da janela a olhar pra mim. Re-uno a coragem pra continuar, me viro, dou um passo. Sinto que vou e que me deixei pra trás. Me separo de mim pra parar, parar com tudo, quer dizer, com tudo isso que me para, me impede.
Impedir. Antes houvesse um motivo isolado, mas são todas eu, juntas, me impedindo.
Sei que preciso me deixar ir, sei que preciso dizer adeus para as que ficam do outro lado da janela, continuo caminhando, debaixo da chuva leve, que molha e acaricia minha pele, minha face.

Adeus, até logo, não se demore.

"Correu a chuva em meu rosto, nem se percebia que chovia eu." O.P.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Carta

Escrever para alguém é complicado.
Escrever para alguém que não conheço é mais ainda...

É uma insegurança, um medo, medo de não sei o que.

É que quando a gente escreve pra quem não conhece muito bem, nunca se sabe o que falar, como falar. E quando não se sabe o que falar, como escrever?
Se faltam palavras, minha tarefa se complica um pouco mais, não?

Estive ausente, de mim mesma até. Principalmente de mim.

Estive longe tentando buscar soluções, mas veja, não consegui.

Agora de volta, procuro como resolver o que ficou.
E ficou isso, a falta de palavras.

Preciso contar, estou insegura das palavras, insegura de tudo.
Estive pensando muito, pensando em sentimento, em sentido.
Agora eu quero sentir.
Sentir o que quer que seja pra acabar com essa falta.

Falta de sentir.

E me assusto com isso. E o susto me impede de falar. Você me impede. Não sei como, tudo é tão prático, tudo funciona, tudo é simples.
Comigo não... É complexo, difícil, complicado...
Tudo muito barroco. Impossível.

Acho que isso que me trava.
Me sinto menor, menos, por ser tão difícil.
Eu sou minha própria crítica, e sou muito severa.

As coisas estão procurando se resolver na minha cabeça,
Num grande jogo.
Jogo de paciência, só pode.

Esperando o curinga, ou o ás de copas...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Momento

A sensação é de estar em alto mar. E depois daquele desespero de não ter pra onde ir vem a calma de onde se está.
Boiando, no silêncio das horas...
Tranquila...

Mas o medo sempre alcança a gente, medo de algum bicho que possa aparecer, medo do tempo que pode mudar, medo das horas se transformarem em dias... Medo de não aguentar...

Uma urgência de contato, de outra companhia... Uma urgência de dividir o momento.

Estar só as vezes ocupa muito espaço, sufoca.

E o silêncio da brisa, passando junto com o tempo,
Passando junto com os pensamentos...
Passando,
passando...
Embalam um sono mais sufocante ainda, sem nexo, anexo, contexto.

Uma coisa sobrepondo outra, numa dança, num movimento sem sentido...

Num tormento.