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sábado, 22 de março de 2025

10 minutos

Eu acabei de assistir uma série que eu gosto muito mas estava evitando acabar de assistir por apego e acabei pensando numas coisas e quis te contar.
A série fala sobre essa transição de adolescência pra adulto, tem um jeito muito gostoso de contar a historia dos personagens e eu sou apaixonado, aí finalmente juntei a força e coragem que precisava pra acabar e que bom que assim fiz...
Porque pra mim ela fala justamente sobre deixar ir as coisas, as pessoas, os momentos. E não é por deixar ir que eles deixam de existir, eles continuam como base formadora de quem se é. 
E sei lá, talvez seja por eu ter chorado até a cara inchar, mas me vi pensando no passado. O que automaticamente me faz pensar no presente. E vou falar de mim, aqui, pra você, pra ver se dou uma forma nesse sentimento que é meio triste, mas não ruim.
Eu vivi muita coisa, muita coisa louca. Eu senti o mundo acabando um sem fim de vezes, meu coração parecia que ia quebrar, escorrer pelas mãos, explodir. E sempre pareceu pra sempre. Essas experiências foram cimentando que o pra sempre passa, que é eterno no momento e que logo outro momento chega.
Eu já chorei tantas noites, tantas! Pensando em tudo que perdi, que não ia poder viver, e poxa, ainda tenho momentos desses, mas também passa, e eu vivo outras coisas e vivo as mesmas coisas, assim diferente e igual, o tempo todo.
É muito louco isso, essa sensação tão grande dentro da gente, essa noção tão densa de que o fim é isso, esse peso que assenta no peito e prejudica respirar, mas uma hora passa. Não sei como, nem porque, mas passa. E aí vem outro nascer do sol, outro banho de chuva, outro beijo, as coisas se encaixam e fazem sentido. Só que essas dores que ja foram, elas também,  permanem, sei lá. 
Ficam sentadas no peito da gente esperando oportunidade de sair e de se chorar de novo. De sentir esse fim, tão profundo quando no momento primeiro que vivi.
Ai, não sei. Eu quis mandar em audio mas tá tudo tão caótico aqui e escrever me ajuda a pôr direção, então vim aqui.
Te mando esse texto-coisa só pra falar que sinto orgulho das dores que vivi. Elas me trouxeram pra esse hoje, por mais difícil que ele seja, mas é um hoje que por exemplo trouxe a gente de volta, diferente e meio igual, e que eu tô com saudade, que as vezes é bem difícil a não presença e que eu gosto muito quando a gente pode passar tempo e falar. De qualquer coisa, de tudo.
E que eu queria um abraço hoje, que sinto um cheiro de andar na vitorio marçola de noite, que escuto músicas na rádio da minha cabeça que não coloco pra tocar há tempos e que tudo que eu queria mesmo eram 10 minutos de você perto, na distância menor possível, de olhar estrelas no céu escuro e viajar por entre o texto e o sentimento.

Amo você.


P.S.: eu te escrevi direto no chat pq tinha certeza que se botasse no blog eu apagaria. Eu tenho uma mania terrível de demorar a te contar quando tô triste pq sempre acho que vou te deixar triste, e eu quero você feliz mas eu sei que não controlo nada nesse mundo.

p.P.S.: hoje eu achei uma bala chita de menta que sobrou do meu aniversário, acho que os planetas se alinharam pra mim.

p.p.p.s.: perdão que fui muito hoje, mas eu quis você pra dividir isso então tá aí, um testamento de pensamentos semi conexos e um grande carinho pro seu dia.

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Beringela

    Hoje eu quis falar com você, conversar sem nenhuma restrição sobre tudo o que fosse e é e será. Hoje eu quis muito que a cozinha fosse mais uma vez palco das suas artes, experimentações. Quis sentir sabores conhecidos, seus temperos e tempos

    Era bom quando você estava bem comigo e a gente passave tempo na cozinha conversando sobre o que quer que fosse. Hoje eu quis compartilhar um pouco de esperança com você, pensar que talvez as coisas tivessem jeito e se apenas isso ou aquilo fossem verdade as coisas seriam melhores. Não sei se era seu pensamento pastoral católico, ou se era uma coisa sua mesmo, parecia que sempre havia um jeito

    Hoje eu quis desesperadamente conversar com você, mas só se você estivesse bem comigo, talvez cozinhar, tomar um vinho. É que agora eu posso, sabe? Acho que agora você deixaria. Já são tantos cabelos brancos que não é possível que implicasse com uma taça. É que é tão difícil pensar você sem cair em algumas ciladas. Não seria fácil conversar com você, a gente divergia de algumas coisas básicas, mas a gente também convergia. Saindo de pressupostos diferentes a gente concordava com outros pontos, também básicos.

    Você sempre foi mais mediadora, mas também escondia o que pensava de verdade. Então eu quis conversar com uma versão sua que nem sei se é real ou se eu inventei. É que eu precisei de um pouco de coragem, de esperança, e na minha cabeça conversar com você talvez me dessem um dos dois.
Passar um tempo na cozinha com você, talvez inventar uma coisa nova ou só cozinhar com o mesmo tempero que você sempre gostou, só pra me dar um pouco de referência, um chão seguro pra pisar. Hoje eu quis um pouco de paz.

sábado, 9 de setembro de 2023

Fogo

Eu queria não sentir esse desespero que vai ocupando meu peito, tomando conta da minha respiração e me impedindo de continuar o que eu estava fazendo.

Essa sensação desafiadora que me acelera os batimentos, de um jeito ruim, e me coloca em posição de vida ou morte quando não tem nada acontecendo de fato, quando estou seguro.

Se apaga solo.

Essa inquietação sem fim que me faz correr, não me deixa enxergar ou racionalizar, me coloca em posição fetal na cama, chorando sem saber direito o por quê.

Eu queria não ser assim. Eu queria ser 'normal' e passar pelas situações incômodas com mais calma, mais consciente de que está tudo bem e vai passar.

E não ter essa sensação falsa que só posso estar morrendo, que não entra ar nos meus pulmões, que meu coração vai explodir.

Se apaga solo.

Fiquei meia hora sem me mexer, deitado na cama, abraçado no travesseiro pra conseguir perceber que foi um truque do meu cérebro, que continuo aqui, são e salvo.

Eu queria não ser assim pra não sentir essa vergonha como se tivesse atrapalhado a noite de todo mundo, mas eu sei que não atrapalhei  eu sei que quem está comigo entende, comemora as pequenas vitórias e não vai cobrar mais do que posso dar.

Se apaga solo.

Enquanto a tensão e as lágrimas vão se dissipando, os pensamentos se organizando e o coração voltando pro ritmo, consigo finalmente respirar. Está passando esse vendaval.

O corpo finalmente relaxa e racionalizo o que aconteceu. Só tenho a agradecer estar com as pessoas certas. Ter um apoio profundo é tão significativo pra mim.

Essa chama de ansiedade queima forte, me abala, mas 'se apaga sola'.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Despedidas



Há um tempo atrás eu escrevi mentalmente cartas de despedida. Apenas três, pedidos de desculpa pelo o que eu deixaria de fazer, perdão pela bagunça, não foi por mal.

Há tanta crueldade nessa necessidade de se despedir, antes eu só pensava em ir embora e depois ia. Mas acontece que a vida, essa arrombada, ela tira pessoas do nosso caminho pra nunca mais voltar tão abruptamente e não, não existe esse momento onde nos abraçamos e nos despedimos. As cartas que ficam pertencem ao ficcional dos filmes, a gente nunca sabe quando é a última vez. A gente pode imaginar, mas saber? Não dá, é muito difícil.

Ainda assim, quando perdemos alguém, além do desejo de mais um minuto por favor, ficam as eternas despedidas que nunca tivemos, que nunca teremos, as despedidas que nunca teremos, as despedidas que nunca teremos. Os ritos, rituais e códigos que criamos pra nos despedir, nunca fizeram muito sentido pra mim, então como fazer para se despedir.

É natural querer mais quando é materialmente impossível? Talvez esse mais um minuto fosse grande merda, mas a gente romantiza. Romantiza tanto ao ponto de escrever cartas de despedida que nunca serão abraços calorosos, a gente coloca no papel um “eu te amo” que não vai amar mais, um “me desculpa a bagunça” que nunca vai arrumar nada. As despedida que nunca teremos face a face, só na cabeça.

Eu quero é sentir, mas estou anestesiado com as despedidas que nunca tive, as despedidas que nunca permiti, as despedidas que nunca dei, as despedidas que nunca terei.

Nunca, me desculpa.

Nunca.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

23 de agosto

Meu amor, tanta coisa que eu queria dizer, mas não com palavras, é tanto carinho, tanto contato, tanto amor que as vezes suspiro por não saber mensurar ou traduzir. Eu nunca esqueci seu aniversário, nunca. E agora que não posso estar perto fica mais latente essa pequena dor que é a sensação de não ter te aproveitado mais quando perto. Dói os desencontros quando a gente descobria só depois que queria a mesma coisa. Minha boca sente falta dos seus beijos e mais que tudo, seu cheiro quando te abraço, nos abraçamos. Eu amo o seu cheiro, e se pudesse engarrafar eu guardava pra esses momentos assim que eu queria estar mais perto.
Eu já falei muita coisa em forma de texto pra você, te amar e viver esses encontros me inspira muito. A gente era jovem quando eu já vislumbrava essa materialidade que a gente é, que a gente vive e volta mas eu não sabia, como as vezes ainda não sei, nomear. Você é amor, e quando falo que te amo não sinto como se a frase fosse uma vírgula ou coisa comum que se normaliza. Eu falo te amo com uma pressão no estômago, um arrepio na pele e uma sensação conhecida tão gostosa que tira sorrisos. E olha que sempre que muda, que sempre que evolui ou precisa se reencontrar, mesmo por qualquer coisa, ainda permanece esse sabor de vida inteira que eu já sentia nas primeiras vezes que sentamos no meio da rua, declamamos textos, nossos, dos outros, de dentro.
Nosso caminho até agora foi longo, turbulento e doloroso em alguns momentos, a gente se machucou pelo percurso e a gente se aceitou de volta e que felicidade ter você de volta. Então é claro que eu queria estar perto porque você me arranca sorrisos fáceis, me aquece o peito, você é amor.
Na falta da presença física, na sobra da saudade e nesse sentimento enorme de felicidade de ter na minha vida eu quero, mesmo que você já saiba, te lembrar que você é foda, maravilhoso, querido, amado, inspirador, belíssimo, amado, competente, lindo, amado, importante, foda, amado, amado amado. Na impossibilidade, temporária, da física material de um abraço, eu te abraço com essa carta, te amando daqui, do outro lado da linha do Equador, com coração aberto pra você e sempre, sempre, sempre te desejando realizações pra tudo que você quiser fazer na sua vida. Se cuida sempre pra que a gente possa logo menos se ver, eu tô dando o meu melhor aqui pra me cuidar pra poder te ver, saudades, apertos, carinhos. Eu te amo.

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

aguaceiro


sinto algo estranho porém muito familiar
tem alguns dias que os minutos e segundos estão passando errado.
ou o ar que entra nos meus pulmões é tão pesado que me arrasto pelos cantos
tudo fora do lugar e eu ali no meio da tempestade
alguma coisa pesa meu peito e não consigo me mover sem antes entender o que está acontecendo.
pensamentos enxurrada me levam
coração palpita e eu suplico para que ele me conte o que é
minha boca diz coisas como ansiedade, estresse, mas o coração acena que não
eu não entendo o que ele diz, meu coração conversa diferente, ele não sabe palavras ou língua falada alguma na terra
sinto que ele grita, frustrado por não entregar sua mensagem
a boca continua usando palavras demais, os olhos dizem lágrimas e meu estômago diz apertos. a pele puro arrepio.
para a nossa salvação, meu corpo e eu, a cabeça pensa imagens de você
as mãos sentem os vazios da sua falta
faz um tempo que o corpo não se revolta assim completamente contra mim
outra onda vem, eu diminuto nesse aguaceiro, sou jogado de um lado para o outro.
busco respirar evitando que me afogue e dialogo com todo meu eu.
então conto, buscando toda paz que consigo encontrar, o que acredito ser o motivo de tanto caos. isso é carência, fazem dias que sinto essa falta presente nas horas que correm, que você não sai da minha lembrança, que isso tudo é saudade, que por melhor que seja a intenção desse motim, não posso fazer nada se todos eles não estiverem na mesma frequência.
percebo o quanto todas minhas partes prestam atenção no que digo. sinto aos poucos a melhora do tempo, a calmaria que vem chegando.
explico que mesmo longe, você está. você existe, você é.
concordo comigo, é difícil as vezes sentir tanto e não dar vazão pra tudo isso guardado dentro de mim. as lembranças, os sabores, os momentos.
me contraponho, por mais que os dias passem, os meses se alonguem, a gente não se fale. por mais que tudo pareça caótico e eu não diga com a frequência que vivo o sentimento, eu sinto. o amor que te ama, está.
eu sei que você me ama e eu amo esse amor

quarta-feira, 26 de julho de 2023

abl

quando eu sonho minha boca ainda está ali, naquela curva da tua cintura, no mesmo lugar que você se derretia em meus braços e eu era o cara mais feliz do mundo
quando eu sonho são com tuas palavras, ditas aos pés dos meus ouvidos, sussurradas em segredo na nossa cama, que era tua mas que você insistia em dizer nossa com medo de que eu não me sentisse a vontade ali
e era você quem me fazia sentir a vontade em tudo que era extensão tua
teu escritório, tua cozinha, teus planos
e como eu estive nos teus planos
eu te olhava por toda a noite enquanto você tentava decifrar tua letra escrita corrida entre um intervalo e outro do trabalho
eu te abraçava por trás e ficávamos ali madrugada afora vendo ‘f’s ou ‘g’s, ou seria um ‘t’? e "meu ‘t’ não é assim pq é diferente quando eu escrevo o teu nome e teu nome tem dois então escrevo grande e pequeno."
quando eu sonho eu não sei mais se lembro ou se invento
porque ali teu gosto estava, a resistencia da tua cintura nas minhas mordidas existia, o cheiro que você me dava no cangote era sentido e até o teu bafo de acordar tava lá. bafo que nunca me incomodou e que muito faz falta quando acordo desses sonhos sem você
ultimamente tenho tido muita dificuldade quando levanto e você não está
fica parecendo que foi tudo só na minha cabeça
e eu não tenho como te ligar
eu não posso falar com você pq eu sei que eu errei, e errei feio, e eu não tenho bolas pra te olhar e ver de novo a decepção que eu vi nos seus olhos sabendo que eu era o responsável por isso
não posso falar com você porque eu sei que vou me rastejar de volta pra tua vida e vou passar os dias te convencendo que eu ainda sou o mesmo, e mesmo que ainda seja o mesmo, foi esse mesmo que pisou na bola e te fez chorar. você não me deixou ver, mas eu sei quando você chora, você fica um dia inteiro com o nariz escorrendo e naquele dia que eu fui embora eu podia ver você toda hora limpando o nariz. mas você, pode ser que me deixe de novo entrar na tua vida, e vai ser bom, porque a gente era bom juntos, a curva da tua cintura vai estar lá, a minha boca ainda vai buscar teus gostos, talvez a gente volte ao compasso que sempre foi nosso. mas tenho medo porque ainda sou o mesmo, e você? eu não sei se você ainda é a mesma. espero que tenha encontrado paz.
eu? eu ainda procuro a curva da tua cintura, aquele pedacinho que meus lábios sempre procuraram, onde depois de uma mordida suave eu via o arrepio que percorria teu corpo, aquele gosto de você que me fazia querer sempre mais, o carinho na nuca que me colocava pra dormir no teu abraço, todos aqueles momentos de nós dois, nossos lábios que não se desgrudavam, teus braços e os meus. minhas pernas e as tuas.
quando eu sonho com você, e eu sempre sonho com você, é pra aqueles momentos que eu volto. escrevo tudo isso pra te contar que nunca te esqueci, mas não tenho como te contar. aí as cartas vão ficando na gaveta, o telefone nunca disca teu número que eu não tenho e eu me pergunto se eu lembrei ou inventei que na tua cintura tem um lugar que eu gosto de morder, que você gosta quando eu mordo e que na tua boca a minha já foi mais feliz.

sábado, 22 de julho de 2023

Crescer

 Can we talk again - Purple Kiss


Como é que faz pra saber 

Onde procuro as respostas

Sentimentos tão grandes e tão vazios

Parece ontem mas faz tanto tempo

Tanto tempo que não sinto a leveza dos dias indo de encontro com as horas

A gente era tão mais simples

Ansiosos por crescer

Cheios de expectativa

De tudo que podíamos ser


Quando foi que os minutos passaram tão rápido

Um mundo girando a 465 metros por segundo

Distâncias colossais percorridas enquanto estávamos sentados ali

Sem medo nenhum do futuro

Ouve, esse silêncio entre a gente era tão gostoso

Hoje não paramos de falar, pra tentar compensar os kilômetros de distância

Entre o que fomos ontem e o que nos arrependemos amanhã.


Era tão fácil gostar de você, porque era tão fácil gostar de mim

Agora eu encaro esse espelho encardido do que poderia ter sido

Onde é que encontro essas respostas, antes tínhamos tantas certezas

Crescer é um passar de tempo, o passar de tempo é um se afastar.

Onde estive ontem? Perdi-me dentro de mim

Te perdi dentro de mim


Esses sentimentos pequenos e tão intensos

Dias carregados ocupam toda a atenção

Não espero

Entendo que toda a cor que vejo é consequencia do que fui


Alguns dias são mais cinzas, outros uma explosão de cor

E nessa linha tênue de oposições vou construindo minha existência

Suave e áspera.


quinta-feira, 20 de julho de 2023

Primeira vez

A primeira vez que te vi parecia um sonho, talvez até tenha sido
Porque eu te vejo mesmo com os olhos fechados.

Na primeira vez que te vi lembro de uma empolgação crescente no peito, o coração que parecia querer saltar da garganta, lugar este que ocupava no momento.

Na primeira vez que te vi senti um tremor nas mãos quando fui te dar oi e uma sensação de incompletude quando me despedi.

A primeira vez que te vi parecia um sonho porque aquele teu cheiro não parecia desse mundo e me deixava tonto, mas era um tonto bom.

A primeira vez que te vi tem gosto de tangerina e o calor forte do sol
Uma brisa fresca e nuvens esparsas com formatos divertidos.

A primeira vez que te vi, a terra parecia estar girando mais depressa, tudo parecia mais apressado. As pessoas, os pássaros, os barcos passando. Menos nós dois, ali, parados, sentados à margem do rio. Só aquele momento me importava.

A primeira vez que te vi tem um sorriso largo, olhos em sorriso e uma leve timidez que desde então parecem fazer parte da minha vida desde o início dos tempos.

A primeira vez que te vi agora parece uma ocupação, porque a casa que era meu peito recebia uma nova moradora, você, e eu torço pra que permaneça.

A primeira vez que te vi foi um sonho porque eu te vejo com os olhos fechados. Quando me deito cheio de saudade.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Só mais uma de saudade

A gente sempre acha que tem tempo 
Mais um beijo 
Outro café
Um abraço de despedida 

Mais um minuto 
Mais uma chance
Um pouquinho mais 

Tanto desperdício de tempo 
Tanto desperdício de amor
Economizando afeto para a próxima vez

Próximo encontro 
Proxima oportunidade
Mais um momento e agora eu vou falar o que tenho evitado

Eu vou amar o amor que tenho guardado
Eu vou

Mais
Uma
Vez

domingo, 10 de abril de 2022

Foi-se

Acordo de uma noite sem sonhos, ao me levantar ainda sinto meu corpo à deriva nesse mar de nadas em que adormeci. O sol discreto também parece meio perdido, sua luz flutuando em meio a um oceano de nuvens. 

Uma frase passa pela minha cabeça, "tudo é improviso", resolvo então não planejar nada. Rotina sempre me deixou exausto, provavelmente porque eu penso demais e me fixo em detalhes. Acho que Caio chamava isso de "parafuso na cabeça", faz muito tempo que não leio Caio, ou qualquer outro autor, na verdade.

A rádio da minha cabeça toca uma música que vive repetindo dentro de mim, "achei que você se lembrasse, mas parece que você esqueceu", de improviso entro no banheiro, um banho talvez tire esses pensamentos todos do meu campo de visão.

Abro a torneira, o chuveiro me banha com um carinho que me pareceu desconhecido, carinho.

Não tenho tido muito carinho comigo, não é?

Todos os dias exausto acordo e me forço a seguir uma lista anteriormente definida de afazeres que quase sempre deixavam de lado o que eu queria.

Os dias foram ficando iguais, e eu cada vez mais cansado e vazio. "Agora são oito da manhã, ódio na manhã", minhas mãos tremem enquanto lavo a cabeça.

Então começo a chorar debaixo da ducha quente, minhas lágrimas se misturando à agua do chuveiro, me sinto escorrendo pelos meus dedos.

No banheiro sem espelhos me vejo pela primeira vez em anos, "consego sentir a dor, e você?"

Viver cansa, deveria ser assim? Se arrastar ao longo das horas dos dias, misturar o ontem hoje e amanhã? "Parado aqui sozinho estou procurando por algo, mas não sinto nada"

Cresce dentro de mim uma sensação conhecida, essa eu vejo todos os dias, a frustração embraza, envolve, sufoca e antecipo todas essas sensações.

Mas não, dessa vez ela me suporta suavemente com seus braços, acalenta meu choro que aumenta e me embala.

Por que eu estou chorando tanto? Subo os olhos, a água cai ritimada, me lembra a chuva.

"Aqui não parece minha casa", ainda é minha, mas o conforto que eu esperava está longe de fazer disso aqui um lar. mas a culpa não é da construção, na realidade nem culpa há para se direcionar a algo.

"Todo meu amor se foi", a canção continua enquanto tento cantarolar e me engasgo no banho. Esse é um bom momento pra encerrar essa ducha, escovo meus dentes e me seco. 

Decido mais uma vez que preciso cuidar de mim, preparo um café, ovos e pão. começo a pensar que preciso comprar frutas, mas logo deixo esse pensamento ir também, o cheiro da comida me pesca de volta em atenção.

A vida não é ruim, minha cabeça não está quebrada, talvez meu coração, mas não sei dizer. O próximo gole de café me afasta de tudo isso. Nele consigo sentir que estou em outro lugar. Sinto brisa e sol e paz. Fecho os olhos e quase consigo sentir o cheiro do mato.

Abro meus olhos no meio da cozinha, minha alma está cansada, minha atenção se volta pro corpo, pesado, triste, carente

É isso, tanto tempo fiquei fechado dentro de mim e de uma ideia de sobrevivência que eu não tenho aproveitado mais o que os dias entregam.

Depois do café um cigarro, meu vício, meu apoio, já tem três meses que minha médica me tirou do antidepressivo, nunca soube o que isso significava, mas agora eu sinto, percebo meus desejos, minhas repulsas, eu não quero viver de ódio, de rancor.

Estamos todos à deriva, invariavelmente. O melhor que posso fazer agora é apreciar a vista.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Eu não sei tirar fotos

Eu não gosto de fotos
não entendo esse rolê todo de memória fotográfica
minha mãe tinha muitas fotos e até hj não consegui espaço na casa pra elas

vou me explicar, eu gosto de fotos. eu não preciso delas
eu amo relembrar, rever lugares pessoas e coisas importantes mas não sinto necessidade de tirar fotos
sempre me achei estranho por isso. sempre liguei a problemas que tenho com minha própria imagem, meu próprio corpo então não presto muita atenção em fazer fotos que retratam o que está/esteve acontecendo

eu gosto daquelas fotos que vc faz do chão, da sombra, da luz, aquelas fotos que ninguém entende, mas você sabe, você vê ali, naquele pequeno recorte, tudo o que vive estampado no corpo, as sensações, as emoções, os sentimentos.

eu gosto do abstrato, do microscópico e do conceitual. eu amo as memórias em mim e amo mais ainda trazê-las para a superfície.

eu não costumo sorrir ou posar para fotos, eu só sei fazer careta, eu não sei me comportar. mas meu corpo absorve cada estímulo que recebo e transforma na memória mais gostosa de sentir.

domingo, 9 de maio de 2021

Eu já tive mãe

Mãeeu faço isso há oito anos, o mês de maio também é difícil. São oito dia das mães sem conseguir fazer muito. São oito dias do seu aniversário que ficaram vazios.

Eu tento várias coisas, não me cobro mais, a vontade é ficar deitado o dia todo, procurar filmes ou livros que me fazem esquecer do dia de hoje.

A internet, é claro, não deixa. Então desligo tudo, tento não pegar no celular. Fico com o Sassá e tento fazer de hoje um dia normal, mas não dá né?

Queria fazer um almoço gostoso, limpar a casa, deixar tudo organizado, foi com essas metas que me deitei ontem, mas não fazem mais nenhum sentido.

Recolho meus cacos e vou enfrentar mais um ano, do jeito que der, com esse aperto no peito e a vontade de chorar contínuas.

Aceito minha força de hoje, e ela me permite ficar quieto, deitado, sem vontades. Tem sido difícil demais

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Como água

Me comprometi com mudanças severas na vida, uma casa, uma cidade, um clima, uma proposta.

A gente é como água.

Quem disse isso é outra pessoa de água, que entende que as vezes vem uma enchente e muda toda a aparência da região. E é essa a meta, andar até não reconhecer nada em volta e aí sim sentar e ver o que pode ser, o que pode ser feito.

É sobre construir uma nova realidade com as prioridades nos lugares, é ter foco e mesmo assim estar atento ao redor e pra dentro.

É sobre ir e viver e avaliar ao mesmo tempo em que se vivencia. 

É sobre como seremos nós mantendo nossos eu's e construindo o presente para o futuro que quero ter.

É sobre nós.

Mas também é sobre mim.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Me levantei as seis em ponto da manhã, sem despertador, uma raridade nesses dias que ainda me ajeito no lugar que ocupo da existência. Me levantei as seis em ponto e me despedi, antes de pegar o celular, de uma das pessoas mais inteligentes que tive o prazer de conhecer. 

Hoje descansa quem tinha uma lição dada em cada conversa, quem me ensinou sobre estrelas e a importância delas na localização da gente, sobre como só vamos pra frente se soubermos onde estamos e sobre como cada ação que temos, por menor que seja no nosso dia-a-dia, invariavelmente atinge outras pessoas. 

Sobre a importância de escolher o bem, o coletivo, a união. Pedra fundamental na minha existência, referência de ser, até logo!

terça-feira, 5 de maio de 2020

Eu não tenho um nome para dar

Belo Horizonte, 05 de maio de 2020


Eu sonhei que o mundo ia acabar,
Não um 'ia', de 'em algum momento da história'
ele ia acabar aqui
Tudo após uma aparente normalidade,

Tudo seguido de coisa nenhuma.

Me senti muito despreparado,
muito desesperado.
Não sabia por onde começar,
se tentava fugir ou se deixava pra lá.
Não sabia se cuidava de mim, ou do meu irmão.

O fim do mundo é mesmo um evento complicado.
Não segue etiqueta,
Não segue código de vestimenta,
Mas principalmente,
não tem horário marcado na agenda.

Eu sonhei que o mundo acabava em água.
Pouco pode ter a ver com o fato do meu rim produzir calcificações,
Ou tudo.

Mas no sonho a água era o fim
Talvez o começo?

De qualquer forma, eu sonhei que rancores eram revividos
E dores eram reacendidas.
(fogo?)
Pessoas que magoaram umas às outras, continuavam a magoar umas as outras enquanto o mundo acabava.
Tudo igual.
Exceto o mundo acabando.
(Será?)

Ainda sim acabava o mundo.
Por obra humana
Gananciosa
Sem razão

Um homem vestido de 'companhia' roubava água de quem não tinha nada,
Vendia e distribuía essa água pra outras pessoas que tinham um pouco mais que nada
E envenenava a água que deixava à disposição de quem vendesse um rim pra pagar.
Ele então vendia a solução em pó de muitos problemas (causados por essa água) e convenceu o mundo a jogar-la em suas caixas d'água e esperar.
A solução, assim, seria distribuída a todos em 'igualdade', era essa sua proposta.

Logo os níveis de água subiam
Desespero começava a tomar conta
A mesma falta de respeito pela história se espalhou como vírus
Matou o respeito, o senso, a crítica
Todos seguiam cegamente a esse homem-empresa e acreditavam que todos os problemas estavam resolvidos.
As tubulações das cidades rangiam com o aumento da pressão
A tensão era material, palpável
Todos com medo, todos temendo que suas coisas-vidas estivessem correndo risco de não mais existirem.
Num piscar de olhos tudo se deu, o que segue é difícil explicar com exatidão.
Direi meu ponto de vista, afinal é tudo o que tenho:

Notícias na televisão, ligações desesperadas, da janela um caos silencioso de quem não sabe o que aguardar. Explosão. Sou jogado do outro lado da sala, corro para janela e vejo fogo nas construções próximas.
Pessoas começam a fugir, mas fugir pra onde?
De novo barulho, mais prédios sentiam os seus canos estourarem. Da janela, ônibus se agrupam na tentativa de tirar as pessoas desse lugar. O ar está espesso, quando já não há o que fazer descobrimos a razão.
A cura vendida em pó absorvia toda a água que chegava em contato com ela, expandia muitas vezes seu tamanho.
O mundo acabava em água, fogo e ganância.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Eu sinto depois da meia noite.

Tenho pensado na vida e suas variáveis, nesses tempos, onde uma grande lua cheia iluminava as noites, eu passei várias delas acordado me perguntando quem sou.

Os anos vão passando cada vez mais depressa.
Os minutos cada vez mais devagar.

E nessa relatividade vou eu, conectando os pontos e tentando resolver o grande quebra cabeças que é...

Viver é muito complicado,
São esperanças e expectativas que cercam, pressionam, pedem por ações.

Muitas vezes me perco nos vazios, do que podia ter sido, do que foi, do que vai ser

Estar.

Do outro lado do oceano me encaro, não sei como cheguei, não sei como voltar. E se soubesse, voltaria pra onde?

Pensar na vida é enfrentar o terror do parafuso entrando na cabeça. Cada volta mais apertada, cada centímetro uma dor. E dor nem é a palavra certa.

Nós somos um não sei de possibilidades que não se concretizaram. Mas negações não formam uma pessoa.

Eu sou o que? As escolhas que fiz, as que deixei de fazer? Eu sou quem está no controle da minha vida?

Pensar é fazer perguntas? Sento no escuro do que sou para falar do que não é. E não, ser não é negar.

Como me atinge o que nego? Construo casas com tijolos imaginários, os colo com cimento fresco. Refresco minha memória, quem eu sou?

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Dentro de mim

Sempre tive medo de altura, de altura não, de cair.
Não gosto de chegar perto de janelas em andares altos, sempre tive a sensação de que meus óculos escorreriam pelo meu nariz e ao encontrar seu fim e se atirar nesse abismo eu me jogaria lá de cima pra resgatá-los.

Medo não tem sentido.

Eu tenho medo de escuro. As lembranças voltam ao tempo da infância, quando as luzes se apagavam vinha o medo de que no escuro eu não veria quando algum mau viesse me procurar. Já teorizei sobre isso, tenho claros na memória alguns pesadelos que me contam histórias reais de terror nas suas entrelinhas.

Medo tem forma.

Eu não gosto de ficar sozinho. Bom, eu não gostava. Na adolescencia eu comecei a entrar em pânico quando ficava só em casa. Carreguei por muito tempo essa aversão, se não houvesse mais ninguém em casa comigo eu ligava a tv, o som, o computador e telefonava pra alguém. Pedia por favor que conversassem comigo sobre o dia, inventassem uma estória, qualquer coisa que me fizesse focar em outra coisa se não o horror que me encontraria porque eu estava sozinho. Pânico. Minha cabeça pregava peças, meus olhos viam coisas, meus ouvidos escutavam o que não existia.

Medo é esmagador.

Essas travas as vezes me impedem de me ver como "normal", elas encontram abrigos em medos novos, elas me fazem sentir um nada. Me ensinaram que eu era menos. Menos gente, menos mulher, menos filha, menos querida. Essa foi minha infância e não existe culpa específica para explicar porque a criança que eu fui se sentia assim, é questão coletiva, é expectativa social.

A expectativa matou meus sonhos. Constato isso sem dor, não acredito que uma variável ou outra teria mudado minha história significativamente. Eu aprendi a cada ano que eu merecia pouco, que eu fazia pouco, que eu era pouco. Eu tinha sempre que ser mais, fazer mais, valer mais pra receber reconhecimento. Tentativas nunca contavam como positivas. Desde muito cedo a frustração me acompanha e eu temo continuar ainda um pouco mais lutando pra lidar com cada frustração que ainda vou viver. Eu sei que vou me frustrar muito nessa vida e tenho medo.

O medo é uma força negativa. Paralisante. É a impressão de que as coisas vão dar errado. Que não vou ser forte. Que não vai ser suficiente.

Eu cedi muito da minha vida pra esse sentimento. Tentei evitar me encontrar com ele, me isolei, errei... Errei muito! Errei em nome de um medo que sequer eu sabia nomear.

Medo é paralisante.

Não existe solução (pro meu coração), não tem nenhuma moral no que eu disse. O medo é real, o medo é controlador. Esse texto não tem um final feliz, ele não tem nem final. Os medos persistem, as vezes fortes, as vezes fracos. Tenho aprendido que de nada adianta temer sentir medo, isso o alimenta. Tenho seguido um dia de cada vez, uma coisa de cada vez, mesmo na incerteza tenho caminhado.

Mesmo no erro, mesmo com medo. Minha resistência é minha maior dádiva e viver é revolucionário. Medos podem ser superados.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Qual o som das ondas quando não há ninguém para ouvi-las?

Te beijar não é uma expectativa, como numa obrigação cotidiana
como trabalhar ou lavar os pés.
É desejo, uma esperança que pode ou não se concretizar.
É um sabor que faz falta no café da manhã,
Um carinho gostoso de se ter.
Ter?
O que tenho são as lembranças, as sensações.
O que tenho é a vontade de te ver feliz.
Isso basta?
Isso acalma. Sentir seus beijos me faz feliz, te faz?
Minha vontade às vezes é de não soltar minha boca da sua.
Na impossibilidade me satisfaço de outras formas,
Me deixo contente com notícias boas,
Me acalento com a visão de que nada na vida é imutável, mesmo que improvável.
Não posso mudar o mundo para acolher todas as minhas vontades
Nem mudar minha vontade pra encaixar o mundo.
Deixo fluir, liberto, pra entender os espaços que ocupo, que me cabem,
que me afastam e aproximam dos seus lábios, como onda.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

nota de pé de página

quando acordei, o céu estava cinza
o vento soprava com força e o dia parecia de cabeça para baixo

uma árvore caiu no meio dia
suas raízes expostas me contavam dos anos de sua existência

uma arvore caiu no meio do dia 
de uma cidade agitada e indiferente
cinza e seca, áspera

o asfalto quente machucava meus pés descalços
ali no meio do dia enquanto via a árvore no chão

'cupins!' dirão alguns
sempre justificando o que não sabem
'ouvi dizer que árvores caem aos sábados'
'foi culpa do solo da região'

mas a árvore permanece deitada
logo menos, brigarão por partes de seu tronco
farão bancos, escrivaninhas.

a vida da árvore, a sua queda, nada disso importa

enquanto divago, meus pés ainda descalços continuam a queimar no asfalto

Vem ver

10 minutos

Eu acabei de assistir uma série que eu gosto muito mas estava evitando acabar de assistir por apego e acabei pensando numas coisas e quis te...